Archive for the ‘uma viajante’ Category

Registros
13.novembro.2011

Um fim de tarde de feliz aniversário – e deliciosa apuração jornalística – em Paraty (RJ).

Anos de viagens a trabalho, como repórter de turismo, e só com a aquisição de uma câmera digital consegui criar álbuns pessoais da inúmeras paisagens e cenas que registrei em campo.

Se por um lado uma digital tira um tanto da graça e da surpresa dos cliques, e faz a preguiça deixar esquecer de fazer questão de ter as fotos em papel, sua modernidade permite que espetando um cabo de uma ponta a outra as imagens ganhem vida de novo, organizadas em pastas, datadas e separadas para ajudar a memória.

Gratas memórias de registros felizes.

E, com imensa saudade:
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~ votem em mim!
24.agosto.2011

amigos e pessoas de passagem por aqui,

preciso de MUITOS cliques para ganhar um concurso fotográfico e conto com a ajuda de vocês.

o link é este: http://wp.me/P1A9M5-eo. e minha foto, que você vê abaixo, é a primeira da galeria – da Mesquita Azul, em Istambul, Turquia.

valeu!

Saudade capital
16.junho.2009

Brasília tem um quê de capital de outro planeta.

Inóspita e improvável, reta e curva, agregadora e distante, única.

Depois de lá estar por duas semanas quase inteiras, seguidas, sinto falta… Simples saudades de estar lá, naquela posição geográfica que não é a minha raiz exata — que é Sampa –, mas que tanto diz do meu país, desse nosso povo, dessa nossa cultura. Eu indico o Cerrado, a selva de pedra (meio um descampado) de Niemeyer, o céu de Brasília.

Também o final de tarde, os taxistas — Aidê! Sérgeo! –, os moradores de nomes estranhos, as quadras, os setores, os eixos. Os bares cheios de não-sei-quem’s e o monsieur Daniel Briand, pelo ambiente francês, os croissants e a bomba de chocolate! Aquele árabe que mesmo numa segunda-feira tinha vida, obrigada!

Me sinto mais brasileira depois desses dias brasilienses… Coisa boa.

E, pra fechar com chave de ouro, mais uma dessas coincidências que a gente adora — Vanvan que achou noutro blog: Os Bolonistas –, um trecho do filme L’ Homme de Rio, de 1964, com Jean-Paul Belmondo. Ótemo!

Qual é a sua lógica?
06.novembro.2008

farmacia

Sim, a frase desta sacola de uma farmácia lisboeta – “Aberto à hora do almoço” – é sensacional, motivo de riso imediato se você que lê este texto é, como eu, brasileiro. Mas se és português, podes estar a pensar “Qual é a piada?”. O que justifica os dizeres é um motivo simples, capaz de matar um paulistano de inveja… Nem tudo fica aberto à hora do almoço na capital portuguesa, apenas porque o comércio é movimentado por pessoas, que têm seus negócios, trabalham nestas empresas ou são clientes, possíveis compradores, mas todos possuem um ponto em comum: almoçam, param à metade do dia para comer, espairecer, conversar, dar aquela espiada na banca de jornais, ou um salto até o Caixa Multibanco, ou o que mais tiver vontade. O que para nós brasileiros causa um estranhamento instantâneo e divertido mostra um outro modo de levar a vida muito mais original e saudável. Mas e se eu quero ir bem na hora do almoço àquela loja? Sim, eu bem sei como é difícil adiar esse tipo de coisa… Nasci na cidade que não pára nunca.

Este papo começou uns 3 posts pra baixo (não vai ser demorado achar, este blog anda meio às moscas…), mas o que há a mais é que a diferença PT-BR tem se revelado pra mim maior, muito maior, menos sutil do que parece, e tão sutil ao mesmo tempo que às vezes quase não se nota… E a confusão pode estar feita, instalada, nesse espaço que pode ser de um pulinho ou de uma viagem num barco a vela. A minha cabeça, que tem uma boa fenda para deixar entrar ar e informação nova, de onde quer que venha, anda anestesiada com as mudanças todas. Confesso que sinto mais dificuldade em falar como os portugueses (e até de entendê-los, quando se empolgam!) do que se tivesse ido pra Espanha. Como assim, sou muito tapada? Talvez!… Me defendo, porém, dizendo que, como pessoa atenta à língua, amante da palavra, dependente da comunicação para ganhar o pão de cada dia, me pego relutando para aceitar que não posso usar meu vocabulário do jeito que aprendi, que sei melhor, que gosto, que uso como canal da minha ânsia criativa. Imaginem alguém te repreender porque você usou um termo que até existe por cá, mas não é tão usado, não assim, dessa maneira… É quase te pedir para trocar a cor do seu All Star, que você acha que combina perfeitamente com todo o resto da roupa. Ou ver seu time com um uniforme novo que não te agrada (acho que os homens entendem esse exemplo, sei lá, foi uma tentativa pela democracia…).

Pode tudo ser uma visão minha, parcial à beça, é claro que é. E essa é outra ficha que cai aos poucos, “como ser você mesmo em terra estranha”. Apesar de adorar falar, bater papo, puxar conversa, me pego muitas vezes calada, tentando sacar “qualé, o que é que rola”… Porque não é do meu feitio chegar e achar que posso abrir meu leque e me abanar à vontade, sem ligar pra torcida, não fora de casa, tão longe da minha praia… Não acho mau, gosto quando respeito a máxima de que não temos dois ouvidos e só uma boca à toa. Só que faz falta comentar uma bobagem e ter o efeito esperado, ou ter uma reação e saber que não se vai causar choque, e vice-versa. Eu estranho tudo bem mais do que achava. “Vou pra Portugal, oras, é quase família!” Experimente lembrar daquela festinha daqueles tios distantes, que você nunca vê, e que na realidade são pessoas que você olha e não enxerga muito mais do que as roupas… Tudo bem, eu já conheci um tio-avô com mais de 20 anos de idade (eu!), numa viagem de trabalho, e amei todos, tio, tia, primos, cães à primeira vista. Mas já vivi o inverso, já pedi para o meu celular tocar e alguém me chamar pra ir até a esquina, a qualquer lugar, ou pra uma porta se abrir como mágica do banheiro pra rua. Não é propriamente uma experiência superbacana. É intensa, profunda, individual. Em Portugal, como nunca antes, eu me sinto única. Não é solidão, apesar de tê-la sempre à espreita, não é tristeza, mesmo não sendo a coisa mais legal do mundo em alguns casos. (Se é uma gente muito estranha à volta, mais compensa estar no próprio corpo e só, bem tranquila…)

E aí a saudade aperta e eu corro pros meus amigos que fiz e agora estão perto, de um jeito que pode não ser o meu, mas é tããão gostoso… São eles que me mostram, mesmo sem querer, que esse lance de achar que a “nossa” lógica faz mais sentido, é mais certa, é algo totalmente aprisionante e desonesto. Julgar deixa de ser um cacoete que não dói, e ganha um peso real e mais sincero. Eu dou risada por dentro, dou, quando ouço ou vejo algo que não entendo e que não representa o meu universo. Mas engulo, com bastante saliva, pra não me esquecer dos episódios, inúmeros, em que fui apontada, nem sempre da forma mais simpática, como “a brasileira”. Eu sou a Flavia Perin, pombas!, e me chamem pelo nome, me vejam com atenção, me entendam sem usar referências! Quem sabe como é chato ter pensamentos como esse no meio de uma cena pode entender onde quero chegar. Quero chegar mais perto de cada pessoa de bem, não importa de onde, e quero o mesmo comigo. Se fosse fácil eu não riria da frase da farmácia, como quase fiz, porque afinal é onde eu compro umas coisinhas lá pelo meio-dia, e os farmacêuticos, vou dizer, são bastante atenciosos…

Estar longe do próprio país é…
28.outubro.2008

Saber que a Sandy casou numa revista de fofocas de Portugal de dois meses atrás. Mas essa é a parte boa da história!

Saudades é…
26.outubro.2008

…ser surpreendida por “Tiro ao álvaro” na rádio e sentir o corpo todo arrepiar, e começar automaticamente a dançar e sorrir.

Eu volto a escrever em breve. As férias de verão acabaram, mas minhas idéias ainda querem tempo pra voltar à ativa.

Tiro ao álvaro

Adoniran Barbosa

De tanto levá frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furá

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que pecheira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver

Fechamos. Tá?
18.agosto.2008

É assim. Julho e agosto são os meses do verão, da alta temporada de férias em Portugal, e o país pára. Não são de estranhar placas como esta nos estabelecimentos comerciais, do tipo “Fui, beijo e não me liga”. Os textos é que podem surpreender, com o bom e velho português literal que predomina por cá. Enfim, começo a achar, como paulistana da gema que sou, que eles é que sabem aproveitar a vida… Será?

Que venha setembro! E que haja leveza de espírito e paciência (para quem tem pressa) até lá!

ps. Demorei um bocado para voltar a esta “casa”, eu sei, mas prometo aumentar a frequência de textos em breve. Agora tá calor e eu quero praia!

Do que não se pode esquecer na bagagem
16.maio.2008

Este blog começa a ser escrito em Lisboa, Portugal. Aos que não sabem, por decisão desta jornalista brasileira mezzo italiana que, entre o ame-o ou deixe-o [o Brasil], optou pelos dois. Vim para cá, entre outras razões, para escrever mais perto de Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco. E para ver de longe o que mais gosto e prezo na vida. Perto nem sempre se enxerga bem. O coração é hipermétrope, alguém já disse? Ah, sim, li em algum lugar que um escritor nasce de uma longa viagem.

Eu poderia iniciar meus relatos contando como achei esta cidade encantadora, bela e fascinante. Falando de seu povo de fala chiada, palavras e expressões diferentes, difíceis de entender ao primeiro ouvido. Dos predinhos antigos colados uns aos outros e das ruas iluminadas por postes baixos de luz amarela – e de como dão às ruas um ar bucólico e romântico. Ou do Tejo, rio que parece mar, e da riqueza dos seus frutos, presentes nos menos pretensiosos cardápios. (Mmmm, posso acabar me estendendo se delegar esta narrativa ao meu estômago…)

Não, não. Escreverei sobre o meu primeiro dia de tédio, em que a pressão (minha sobre mim) para fazer dar certo este passo além-mar eclodiu no sentimento que não se pode ter sob nenhuma hipótese: o medo. Medo que paralisa. E não se progride sem movimento. Não faz sentido desistir ou perder tempo com pensamentos negativos. Mas, sou como tudo que anda e pensa, e não é todo dia que ganho de mim.

Horas no quarto com o portátil [laptop] no colo, as costas dóem e as nóias batem: o computador recém-adquirido, que deveria ser instrumento de trabalho, parece estar mesmo com defeito. Ao comprá-lo, me informaram que “a caixa estava aberta”, e que se houvesse problema tinha 30 dias para troca. A ânsia por conexão com o cyberespaço me fez esquecer que a pressa só não é inimiga de maratonistas.

Tela travada à frente e surge uma vontade incontrolável de fugir correndo para um local seguro, um bunker? Lembro de um café a algumas quadras. A chuva, porém, vem tentar me impedir. Eu não trouxe guarda-chuva na mala – nem saboneteira e elásticos de cabelo. Saio mesmo assim. Vou até a esquina e peço uma Cola (como eles abreviam). Bebo debaixo de um toldo, assistindo as gotas caírem. Decido usar o capuz e me ponho a andar pela vizinhança que ainda pouco conheço.

Numa loja chinesa, dessas que têm tudo (aqui também!), não havia sombrinha – eu queria um modelo de bolsa, para uma pretensa andarilha lisboeta. Quase volto para casa, mas me deparo com outra loja, apertada e curiosa, no meio do caminho. Um senhor atrás do balcão olha para mim. Entro e pergunto por porta-sabonete (será esse o termo?). Ele abre uma gaveta e tira um branco, meio encardido.

_Quanto custa?

_Quinze euros.

_Quinze?!

Ele me mostra a etiqueta, € 1,50. Sorrimos.

_E guarda-chuva de bolsa?

Entre as várias cores e estampas, opto por uma xadrez de azul e marrom, nem tão sóbria nem tão chamativa.

_39 euros.

Já sei que são € 3,90. Outro sorriso duplo.

_Não se pode levar a vida tão a sério! – ele me diz com os mesmos lábios felizes.

Às vezes, o que se precisa para ter uma resposta é dar uma volta no quarteirão.

Nem a maior mala do mundo é capaz de carregar tudo.

A chuva parou ali.