Archive for the ‘filosofando’ Category

Cruel e romântico: dois lados da mesma moeda, seja o futebol ou a vida
11.agosto.2010

Gael García Bernal e Diego Luna vivem dois irmãos novatos no universo do futebol

Rudo e Cursi. Do espanhol para o português, eles são “Cruel” e “Romântico”, apelidos de dois irmãos que, fora o fato de terem a mesma mãe, dividem o mesmo talento nato e a mesma paixão – o futebol. Não à toa, possuem personalidade e caráter bem distintos, opostos. Além de cruel, Rudo tem um quê de aproveitador, imoral, trapaceiro. Quer vencer, no jogo e na vida, a qualquer custo, ainda que para isso tenha de passar para trás esposa, filhos, irmão. Cursi é ingênuo, sonhador, benevolente. Pensa em fazer sucesso com o que faz de pior, mas que mais lhe dá prazer – a música.

Para ambos, o futebol, no início da trama, é apenas lazer. Até que uma oportunidade surge para que um dos dois aposte seu futuro no esporte. O impasse é resolvido com a bola, pelo que não há, objetivamente, uma decisão justa.

Logo nas primeiras cenas, Rudo & Cursi se vale de simbolismos e da poesia do universo futebolístico para apresentar a história ao espectador, bem como traçar profundos paralelos e, assim, explicar a vida. O filme começa com imagens – de luvas de goleiro penduradas na cruz de um cemitério, de uma trave desenhada numa parede – e conjecturas de um narrador (mais tarde também personagem) que busca expor a força simbólica do futebol em ditos da sabedoria popular e lendas – por exemplo, de como o futebol teria começado, surgido no mundo. Recorre, ainda, à razão pura e simples, como quando demarca a importância do esforço coletivo (em oposição ao esforço individual) para se chegar ao êxito, a um objetivo comum.

Regras e rivalidade servem para que se relacione o jogo com a guerra. Vem à tona o lado cruel: na vida e no esporte, “não se pode errar”. A certa altura, o narrador diz: “Pênalti significa castigo para um dos jogadores, o outro sai glorioso. Se os dois saem castigados é porque o jogo da vida, que é maior, superou o futebol, que é o mais belo.” E, em mais uma etapa na trajetória dos irmãos futebolistas, é a poética que os une, um ao outro e eles ao público. O futebol representa, para ambos, começo, meio e fim. Às vezes, uma válvula de escape – Rudo joga futebol na máquina de fliperama que mantém dentro de casa não apenas para passar o tempo, mas também para fugir das responsabilidades e das cobranças da esposa.

De forma alternada, embora simultânea num sentido mais amplo (o enredo como um todo), recorre-se ao “outro lado”, a face sentimental do esporte. “Os reencontros são mágicos, como o jogador quando toca a bola depois de uma lesão ou de uma má fase”, afirma o narrador. Ele compara a bola à mulher amada, o amor ao futebol ao amor pela mãe, e decreta a máxima “Tudo por amor ao futebol”.

Mais do que se apropriar da dinâmica que move o futebol dentro e fora dos campos, Rudo & Cursi capta e projeta pormenores dramáticos, trágicos, hilários e absurdos do esporte para distanciar e aproximar os dois irmãos de suas verdades, de seus medos, de seus desejos. No vaivém dos altos e baixos de suas carreiras, o que determina o desfecho dos fatos não é o que eles têm de diferente, mas o que os torna tão parecidos. Dois homens perdidos, perseguindo a bola como se persegue a felicidade e o sucesso. O que conseguem é provar aos espectadores que o resultado conta menos do que o que se faz antes, depois e durante o jogo – em suma, o que se faz no decorrer da própria vida.

Texto escrito para a disciplina ‘Esporte e cultura’, lecionada pelo professor Sergio Rizzo (Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo, Faap/SP)


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O futebol de Garrincha e a identidade brasileira
04.agosto.2010

(Maio 2010)

Comparado a Charles Chaplin por Nelson Rodrigues, o jogador Garrincha, considerado “o anjo de pernas tortas”, foi o primeiro atleta a ter um documentário brasileiro dedicado à sua vida e à sua carreira, em pleno auge nesta época. Lançado em 1963, o filme Garrincha, alegria do povo contou com craques também atrás da tela: teve direção e roteiro assinados por Joaquim Pedro de Andrade, produção de Luiz Carlos Barreto e Armando Nogueira (que colaborou com o roteiro), fotografia de Mário Carneiro e narração de Heron Domingues.

Para entender a importância do filme neste período – sem deixar de lado sua relevância histórica, até hoje reconhecida –, ressalto um pensamento de Victor Andrade de Melo extraído de seu estudo Garrincha x Pelé: futebol, cinema, literatura e a construção da identidade nacional (publicado pela Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro): “a figura de Garrincha é utilizada para traçar um retrato do povo brasileiro, aquele que a princípio não tem nada para dar certo, mas, sabe-se lá como, acaba triunfando”.

De fato, Garrincha é mostrado no filme como um mau operário, que dormia durante o expediente mas não era despedido porque nos fins de semana, em campo, defendia como ninguém o time de futebol da fábrica. Levando-se em conta a possibilidade de construção da identidade nacional a partir de Garrincha, alegria do povo, vale considerar que, de acordo com Andrade de Melo, as relações entre cinema e esporte são bastante férteis para permitir discutir representações fundamentais para a construção do ideário e do imaginário da sociedade moderna: de questões políticas e de propagação de modelos de comportamento à construção da identidade nacional.

Pouco antes de esta produção cinematográfica chegar ao público, em 1961, o Brasil assistia à posse de João Goulart como presidente do Brasil, já que Jânio Quadros renunciou ao cargo após seis meses e 25 dias de governo. Goulart foi tido como sucessor do nacionalista Getúlio Vargas pelos oficiais das Forças Armadas e políticos de direita, e, em 8 de setembro, um dia depois de sua posse, o Congresso aprovou o regime parlamentarista, diminuindo seus poderes na presidência.

Neste contexto político, e se “as pessoas não são apenas cidadãs legais de uma nação: elas participam da ideia da nação tal como é representada em sua cultura nacional” (Stuart Hall, 2003), é de se supor que o filme em questão tenha exercido grande influência na sociedade brasileira, e não só em seus espectadores. Garrincha era ídolo, e era (aliás, ainda é) praticamente impossível encontrar quem discordasse de seu talento, tido como quase mágico.

Para reforçar a idolatria nacional à figura de Garrincha, na Copa de 1958 a Seleção Brasileira conquistou pela 2ª vez a Taça Jules Rimet, ao vencer a Tchecoslováquia por 3 a 1. Há quem diga que Garrincha não só foi o destaque da equipe como jogou praticamente sozinho e, assim sendo, fez o Brasil conquistar o título por seu mérito único.

'O anjo de pernas tortas' do futebol

Garrincha foi o 1º atleta a ter um documentário nacional sobre sua vida.

No entanto, toda a fama que os dribles desconcertantes de Manuel Francisco dos Santos (seu nome de registro) lhe renderam não foi suficiente para evitar que a estrela de Mané Garrincha se apagasse, e o homem-mito tivesse sua trajetória encerrada de maneira trágica, numa decadência que se resumiria na cirrose do fígado que o levou à morte prematura em 1983, aos 49 anos.

O dilema de Garrincha? Sua declaração “Quem já foi Garrincha não consegue ser Manuel dos Santos outra vez” parece responder. Em seu livro Veneno remédio – O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik afirma que ele era “uma espécie de incógnita do dilema brasileiro, colocado entre as mazelas do atraso e as promessas de sua originalidade no modo de se inserir na realidade dos tempos modernos”. Resta perguntar: nosso país terá resolvido sua incógnita, seu dilema? Em se tratando de futebol, e considerada a recepção do povo à escalação do técnico Dunga para esta Copa do Mundo, pode-se concluir que ainda há muito que se discutir sobre a representação da identidade do povo brasileiro – a que se espera e a que se vê na prática.

Texto escrito para a disciplina ‘Esporte e cultura’, lecionada pelo professor Sergio Rizzo (Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo, Faap/SP)

Ok, eu me rendo
22.janeiro.2010

Decidi aceitar a realidade: este blog está quase morrendo. Não por falta de amor – reservo à este espaço um lugar especial no meu peito. Mas um passarinho chamado Twitter me fisgou como peixe faminto. Condiz com a minha verdade atual, que é a falta de tempo. Escrever um pensamento, uma dica, um desabafo em 140 caracteres faz muito mais sentido neste meu momento. E, não por pura coincidência, tem feito sentido para muita gente. Hoje contabilizo 559 tweets, 230 following e 155 followers. É coisa pra caramba – pessoas e instituições soltando o verbo minuto a minuto, eu superincluída nisto, seguindo e sendo seguida como num filme policial agitado, em que ninguém chega a morrer por causa dos tiros. Ok, há quem se queime – alguém lembrou da Xuxa e da Sandy? Mas o barato é se expor com tamanha dinâmica,  e saber da vida, dos feitos, das sugestões e dos arroubos filosóficos alheios numa única tela, sem muitos cliques.

Não sabe do que eu estou falando? Entre já e fuce, você logo entende: www.twitter.com/flaviaperin. Tomara que você se deixe voar junto com este pássaro do nosso presente.

Temos razões
07.janeiro.2010

É este mesmo homem que me dá uma resposta… Disseram-me “suas razões são outras”. Importa? O que vale, outro me disse, é que se respeitem os próprios sentimentos, soberanos que são. Escrever com verdade e não escrever sem mentira acaba sendo a mesma coisa. A diferença é a falta de poesia em linhas concretas, prontas para o sempre em toda a sua vastidão.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece.

E as estrelas lá no céu

Lembram letras no papel,

Quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?

[Paulo Leminski]

para que leda – alguém mais?… – me leia
08.dezembro.2009

para que leda me leiapara que leda me leia

precisa papel de seda

precisa pedra e areia

para que leia me leda

precisa lenda e certeza

precisa ser e sereia

para que apenas me veja

pena que seja leda

quem quer você que me leia

[Paulo Leminski]

Adoro escrever desde que me entendo por um ser alfabetizado. Bilhetes na sala de aula para os amigos, cartas de afeto e amor para parentes e pretês, redações (e não só as que a professora de Português encomendava). Fiz dois livrinhos de contos na 2ª e na 3ª séries, como atividade de final de ano – bela escola esta, Pentágono… -, e cheguei ao cúmulo de escrever meu nome e frases soltas pelas paredes e portas de casa. (Prefiro não lembrar do castigo que recebi…)

Escrevo assim até hoje, é meu trabalho, e confesso que sinto um prazer especial no bater de teclas. Mas abandonei, a-ban-do-nei este blog e um outro que mantenho em segredo, a que só eu tenho acesso. Por quê? Talvez eu tenha a resposta.

Assim como sempre gostei de escrever, não gosto, na mesma proporção, de fazer coisas que outras pessoas fazem aos montes. Salvas as exceções, que existem e nós só temos de agradecer por isto!, blog virou sinônimo de “falomesmofalotudofaloeescrevo”. É gritante e perturbante a quantidade de espaços abertos para que bobagens e mentiras sejam propagadas pela world wide web. Ok, vivemos num mundo livre. Uf…

Mas… Meu bode não acaba com a minha vontade de escrever, muito menos me impede de postar aqui as coisas que escrevo, as minhas bobagens, as minhas mentiras – nunca disfarçadas de dados concretos ou fatos históricos. Eu não sei para quem escrevo, e pode ser que nem exista esse alguém. Pode ser que nem a Leda, a do Leminski ou outra, venha a me ler. Ainda assim quero fazer. Ainda que muito de vez em quando…

Um dia eu volto. Acho que amanhã mesmo.

ps. Obrigada a quem me presenteou com este PL.

o mundo até parece uma festa
01.outubro.2009

o vento sabe se divertir com o tempo...

o vento sabe celebrar o tempo...

você resolve se quer fazer do seu dia uma celebração ou um lamento, apesar de não ser tão simples. e é esse o desafio, simplificar tudo o que for possível, venha de fora ou de dentro. o mundo é desatento, deixa passar momentos lindos no meio de uma pressa de bater ponto, pagar conta, ser alguém mais esperto. sempre me pergunto se o que faço é o mais importante, menos quando não tenho dúvidas e apenas sinto – bem, comigo e com todos os contudos. viver será vencer a rotina como se nenhuma luta fosse, deixando rastros bem marcados de feitos bem-feitos e sonhos prontos para consumo. acorde e pense no que quer fazer de você hoje. se conseguir, me conte. eu abro a champanhe. faço a trilha, arrisco uns passos na pista, volto pra casa sem resto de energia – algo que quanto mais se usa mais se renova, mais se tem forte. ter ânimo é escolha; sendo assim, escolha-se. a sensação de saber de tudo? falsa, é só a impressão que acumular os anos causa. só fachada. se é pra mostrar, que seja belo! bonito de guardar na gaveta dos olhos, mas espalhar a parte volátil – suave… – pelos poros.

…eu escreveria com o vocabulário dos sons e no infinito viveria o hoje. eu digo obrigada à sorte!

da série O futebol explica tudo – II
31.agosto.2009

tirada no Memorial do Maracanã/RJ.

tirada no Memorial do Maracanã/RJ.

Explica?

Ontem
10.julho.2009

O dia anterior parece perto

ou longe?

Deixa a sensação

de que o mundo

é para os nômades

que caminham sem direção.

E a Lua,

ainda cheia no céu,

pura provocação.

* Na página de ontem da minha agenda, Fernando Pessoa escreveu:

“Eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de mim. Há todas as razões boas para eu não gostar de ti, menos a de eu não gostar, porque gosto. É fantástico a gente sentir o que não quer e ter um coração independente.” (Aforismos e Afins)

Eis um homem fantástico…

Saudade capital
16.junho.2009

Brasília tem um quê de capital de outro planeta.

Inóspita e improvável, reta e curva, agregadora e distante, única.

Depois de lá estar por duas semanas quase inteiras, seguidas, sinto falta… Simples saudades de estar lá, naquela posição geográfica que não é a minha raiz exata — que é Sampa –, mas que tanto diz do meu país, desse nosso povo, dessa nossa cultura. Eu indico o Cerrado, a selva de pedra (meio um descampado) de Niemeyer, o céu de Brasília.

Também o final de tarde, os taxistas — Aidê! Sérgeo! –, os moradores de nomes estranhos, as quadras, os setores, os eixos. Os bares cheios de não-sei-quem’s e o monsieur Daniel Briand, pelo ambiente francês, os croissants e a bomba de chocolate! Aquele árabe que mesmo numa segunda-feira tinha vida, obrigada!

Me sinto mais brasileira depois desses dias brasilienses… Coisa boa.

E, pra fechar com chave de ouro, mais uma dessas coincidências que a gente adora — Vanvan que achou noutro blog: Os Bolonistas –, um trecho do filme L’ Homme de Rio, de 1964, com Jean-Paul Belmondo. Ótemo!

da série Frases invasoras de cérebro
10.junho.2009

No mundo adulto não há espaço para firulas.
(Da rainha das firulinhas)