Cruel e romântico: dois lados da mesma moeda, seja o futebol ou a vida

Gael García Bernal e Diego Luna vivem dois irmãos novatos no universo do futebol

Rudo e Cursi. Do espanhol para o português, eles são “Cruel” e “Romântico”, apelidos de dois irmãos que, fora o fato de terem a mesma mãe, dividem o mesmo talento nato e a mesma paixão – o futebol. Não à toa, possuem personalidade e caráter bem distintos, opostos. Além de cruel, Rudo tem um quê de aproveitador, imoral, trapaceiro. Quer vencer, no jogo e na vida, a qualquer custo, ainda que para isso tenha de passar para trás esposa, filhos, irmão. Cursi é ingênuo, sonhador, benevolente. Pensa em fazer sucesso com o que faz de pior, mas que mais lhe dá prazer – a música.

Para ambos, o futebol, no início da trama, é apenas lazer. Até que uma oportunidade surge para que um dos dois aposte seu futuro no esporte. O impasse é resolvido com a bola, pelo que não há, objetivamente, uma decisão justa.

Logo nas primeiras cenas, Rudo & Cursi se vale de simbolismos e da poesia do universo futebolístico para apresentar a história ao espectador, bem como traçar profundos paralelos e, assim, explicar a vida. O filme começa com imagens – de luvas de goleiro penduradas na cruz de um cemitério, de uma trave desenhada numa parede – e conjecturas de um narrador (mais tarde também personagem) que busca expor a força simbólica do futebol em ditos da sabedoria popular e lendas – por exemplo, de como o futebol teria começado, surgido no mundo. Recorre, ainda, à razão pura e simples, como quando demarca a importância do esforço coletivo (em oposição ao esforço individual) para se chegar ao êxito, a um objetivo comum.

Regras e rivalidade servem para que se relacione o jogo com a guerra. Vem à tona o lado cruel: na vida e no esporte, “não se pode errar”. A certa altura, o narrador diz: “Pênalti significa castigo para um dos jogadores, o outro sai glorioso. Se os dois saem castigados é porque o jogo da vida, que é maior, superou o futebol, que é o mais belo.” E, em mais uma etapa na trajetória dos irmãos futebolistas, é a poética que os une, um ao outro e eles ao público. O futebol representa, para ambos, começo, meio e fim. Às vezes, uma válvula de escape – Rudo joga futebol na máquina de fliperama que mantém dentro de casa não apenas para passar o tempo, mas também para fugir das responsabilidades e das cobranças da esposa.

De forma alternada, embora simultânea num sentido mais amplo (o enredo como um todo), recorre-se ao “outro lado”, a face sentimental do esporte. “Os reencontros são mágicos, como o jogador quando toca a bola depois de uma lesão ou de uma má fase”, afirma o narrador. Ele compara a bola à mulher amada, o amor ao futebol ao amor pela mãe, e decreta a máxima “Tudo por amor ao futebol”.

Mais do que se apropriar da dinâmica que move o futebol dentro e fora dos campos, Rudo & Cursi capta e projeta pormenores dramáticos, trágicos, hilários e absurdos do esporte para distanciar e aproximar os dois irmãos de suas verdades, de seus medos, de seus desejos. No vaivém dos altos e baixos de suas carreiras, o que determina o desfecho dos fatos não é o que eles têm de diferente, mas o que os torna tão parecidos. Dois homens perdidos, perseguindo a bola como se persegue a felicidade e o sucesso. O que conseguem é provar aos espectadores que o resultado conta menos do que o que se faz antes, depois e durante o jogo – em suma, o que se faz no decorrer da própria vida.

Texto escrito para a disciplina ‘Esporte e cultura’, lecionada pelo professor Sergio Rizzo (Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo, Faap/SP)


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