O futebol de Garrincha e a identidade brasileira

(Maio 2010)

Comparado a Charles Chaplin por Nelson Rodrigues, o jogador Garrincha, considerado “o anjo de pernas tortas”, foi o primeiro atleta a ter um documentário brasileiro dedicado à sua vida e à sua carreira, em pleno auge nesta época. Lançado em 1963, o filme Garrincha, alegria do povo contou com craques também atrás da tela: teve direção e roteiro assinados por Joaquim Pedro de Andrade, produção de Luiz Carlos Barreto e Armando Nogueira (que colaborou com o roteiro), fotografia de Mário Carneiro e narração de Heron Domingues.

Para entender a importância do filme neste período – sem deixar de lado sua relevância histórica, até hoje reconhecida –, ressalto um pensamento de Victor Andrade de Melo extraído de seu estudo Garrincha x Pelé: futebol, cinema, literatura e a construção da identidade nacional (publicado pela Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro): “a figura de Garrincha é utilizada para traçar um retrato do povo brasileiro, aquele que a princípio não tem nada para dar certo, mas, sabe-se lá como, acaba triunfando”.

De fato, Garrincha é mostrado no filme como um mau operário, que dormia durante o expediente mas não era despedido porque nos fins de semana, em campo, defendia como ninguém o time de futebol da fábrica. Levando-se em conta a possibilidade de construção da identidade nacional a partir de Garrincha, alegria do povo, vale considerar que, de acordo com Andrade de Melo, as relações entre cinema e esporte são bastante férteis para permitir discutir representações fundamentais para a construção do ideário e do imaginário da sociedade moderna: de questões políticas e de propagação de modelos de comportamento à construção da identidade nacional.

Pouco antes de esta produção cinematográfica chegar ao público, em 1961, o Brasil assistia à posse de João Goulart como presidente do Brasil, já que Jânio Quadros renunciou ao cargo após seis meses e 25 dias de governo. Goulart foi tido como sucessor do nacionalista Getúlio Vargas pelos oficiais das Forças Armadas e políticos de direita, e, em 8 de setembro, um dia depois de sua posse, o Congresso aprovou o regime parlamentarista, diminuindo seus poderes na presidência.

Neste contexto político, e se “as pessoas não são apenas cidadãs legais de uma nação: elas participam da ideia da nação tal como é representada em sua cultura nacional” (Stuart Hall, 2003), é de se supor que o filme em questão tenha exercido grande influência na sociedade brasileira, e não só em seus espectadores. Garrincha era ídolo, e era (aliás, ainda é) praticamente impossível encontrar quem discordasse de seu talento, tido como quase mágico.

Para reforçar a idolatria nacional à figura de Garrincha, na Copa de 1958 a Seleção Brasileira conquistou pela 2ª vez a Taça Jules Rimet, ao vencer a Tchecoslováquia por 3 a 1. Há quem diga que Garrincha não só foi o destaque da equipe como jogou praticamente sozinho e, assim sendo, fez o Brasil conquistar o título por seu mérito único.

'O anjo de pernas tortas' do futebol

Garrincha foi o 1º atleta a ter um documentário nacional sobre sua vida.

No entanto, toda a fama que os dribles desconcertantes de Manuel Francisco dos Santos (seu nome de registro) lhe renderam não foi suficiente para evitar que a estrela de Mané Garrincha se apagasse, e o homem-mito tivesse sua trajetória encerrada de maneira trágica, numa decadência que se resumiria na cirrose do fígado que o levou à morte prematura em 1983, aos 49 anos.

O dilema de Garrincha? Sua declaração “Quem já foi Garrincha não consegue ser Manuel dos Santos outra vez” parece responder. Em seu livro Veneno remédio – O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik afirma que ele era “uma espécie de incógnita do dilema brasileiro, colocado entre as mazelas do atraso e as promessas de sua originalidade no modo de se inserir na realidade dos tempos modernos”. Resta perguntar: nosso país terá resolvido sua incógnita, seu dilema? Em se tratando de futebol, e considerada a recepção do povo à escalação do técnico Dunga para esta Copa do Mundo, pode-se concluir que ainda há muito que se discutir sobre a representação da identidade do povo brasileiro – a que se espera e a que se vê na prática.

Texto escrito para a disciplina ‘Esporte e cultura’, lecionada pelo professor Sergio Rizzo (Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo, Faap/SP)

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