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Qual é a sua lógica?
06.novembro.2008

farmacia

Sim, a frase desta sacola de uma farmácia lisboeta – “Aberto à hora do almoço” – é sensacional, motivo de riso imediato se você que lê este texto é, como eu, brasileiro. Mas se és português, podes estar a pensar “Qual é a piada?”. O que justifica os dizeres é um motivo simples, capaz de matar um paulistano de inveja… Nem tudo fica aberto à hora do almoço na capital portuguesa, apenas porque o comércio é movimentado por pessoas, que têm seus negócios, trabalham nestas empresas ou são clientes, possíveis compradores, mas todos possuem um ponto em comum: almoçam, param à metade do dia para comer, espairecer, conversar, dar aquela espiada na banca de jornais, ou um salto até o Caixa Multibanco, ou o que mais tiver vontade. O que para nós brasileiros causa um estranhamento instantâneo e divertido mostra um outro modo de levar a vida muito mais original e saudável. Mas e se eu quero ir bem na hora do almoço àquela loja? Sim, eu bem sei como é difícil adiar esse tipo de coisa… Nasci na cidade que não pára nunca.

Este papo começou uns 3 posts pra baixo (não vai ser demorado achar, este blog anda meio às moscas…), mas o que há a mais é que a diferença PT-BR tem se revelado pra mim maior, muito maior, menos sutil do que parece, e tão sutil ao mesmo tempo que às vezes quase não se nota… E a confusão pode estar feita, instalada, nesse espaço que pode ser de um pulinho ou de uma viagem num barco a vela. A minha cabeça, que tem uma boa fenda para deixar entrar ar e informação nova, de onde quer que venha, anda anestesiada com as mudanças todas. Confesso que sinto mais dificuldade em falar como os portugueses (e até de entendê-los, quando se empolgam!) do que se tivesse ido pra Espanha. Como assim, sou muito tapada? Talvez!… Me defendo, porém, dizendo que, como pessoa atenta à língua, amante da palavra, dependente da comunicação para ganhar o pão de cada dia, me pego relutando para aceitar que não posso usar meu vocabulário do jeito que aprendi, que sei melhor, que gosto, que uso como canal da minha ânsia criativa. Imaginem alguém te repreender porque você usou um termo que até existe por cá, mas não é tão usado, não assim, dessa maneira… É quase te pedir para trocar a cor do seu All Star, que você acha que combina perfeitamente com todo o resto da roupa. Ou ver seu time com um uniforme novo que não te agrada (acho que os homens entendem esse exemplo, sei lá, foi uma tentativa pela democracia…).

Pode tudo ser uma visão minha, parcial à beça, é claro que é. E essa é outra ficha que cai aos poucos, “como ser você mesmo em terra estranha”. Apesar de adorar falar, bater papo, puxar conversa, me pego muitas vezes calada, tentando sacar “qualé, o que é que rola”… Porque não é do meu feitio chegar e achar que posso abrir meu leque e me abanar à vontade, sem ligar pra torcida, não fora de casa, tão longe da minha praia… Não acho mau, gosto quando respeito a máxima de que não temos dois ouvidos e só uma boca à toa. Só que faz falta comentar uma bobagem e ter o efeito esperado, ou ter uma reação e saber que não se vai causar choque, e vice-versa. Eu estranho tudo bem mais do que achava. “Vou pra Portugal, oras, é quase família!” Experimente lembrar daquela festinha daqueles tios distantes, que você nunca vê, e que na realidade são pessoas que você olha e não enxerga muito mais do que as roupas… Tudo bem, eu já conheci um tio-avô com mais de 20 anos de idade (eu!), numa viagem de trabalho, e amei todos, tio, tia, primos, cães à primeira vista. Mas já vivi o inverso, já pedi para o meu celular tocar e alguém me chamar pra ir até a esquina, a qualquer lugar, ou pra uma porta se abrir como mágica do banheiro pra rua. Não é propriamente uma experiência superbacana. É intensa, profunda, individual. Em Portugal, como nunca antes, eu me sinto única. Não é solidão, apesar de tê-la sempre à espreita, não é tristeza, mesmo não sendo a coisa mais legal do mundo em alguns casos. (Se é uma gente muito estranha à volta, mais compensa estar no próprio corpo e só, bem tranquila…)

E aí a saudade aperta e eu corro pros meus amigos que fiz e agora estão perto, de um jeito que pode não ser o meu, mas é tããão gostoso… São eles que me mostram, mesmo sem querer, que esse lance de achar que a “nossa” lógica faz mais sentido, é mais certa, é algo totalmente aprisionante e desonesto. Julgar deixa de ser um cacoete que não dói, e ganha um peso real e mais sincero. Eu dou risada por dentro, dou, quando ouço ou vejo algo que não entendo e que não representa o meu universo. Mas engulo, com bastante saliva, pra não me esquecer dos episódios, inúmeros, em que fui apontada, nem sempre da forma mais simpática, como “a brasileira”. Eu sou a Flavia Perin, pombas!, e me chamem pelo nome, me vejam com atenção, me entendam sem usar referências! Quem sabe como é chato ter pensamentos como esse no meio de uma cena pode entender onde quero chegar. Quero chegar mais perto de cada pessoa de bem, não importa de onde, e quero o mesmo comigo. Se fosse fácil eu não riria da frase da farmácia, como quase fiz, porque afinal é onde eu compro umas coisinhas lá pelo meio-dia, e os farmacêuticos, vou dizer, são bastante atenciosos…

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