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Do que não se pode esquecer na bagagem
16.maio.2008

Este blog começa a ser escrito em Lisboa, Portugal. Aos que não sabem, por decisão desta jornalista brasileira mezzo italiana que, entre o ame-o ou deixe-o [o Brasil], optou pelos dois. Vim para cá, entre outras razões, para escrever mais perto de Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco. E para ver de longe o que mais gosto e prezo na vida. Perto nem sempre se enxerga bem. O coração é hipermétrope, alguém já disse? Ah, sim, li em algum lugar que um escritor nasce de uma longa viagem.

Eu poderia iniciar meus relatos contando como achei esta cidade encantadora, bela e fascinante. Falando de seu povo de fala chiada, palavras e expressões diferentes, difíceis de entender ao primeiro ouvido. Dos predinhos antigos colados uns aos outros e das ruas iluminadas por postes baixos de luz amarela – e de como dão às ruas um ar bucólico e romântico. Ou do Tejo, rio que parece mar, e da riqueza dos seus frutos, presentes nos menos pretensiosos cardápios. (Mmmm, posso acabar me estendendo se delegar esta narrativa ao meu estômago…)

Não, não. Escreverei sobre o meu primeiro dia de tédio, em que a pressão (minha sobre mim) para fazer dar certo este passo além-mar eclodiu no sentimento que não se pode ter sob nenhuma hipótese: o medo. Medo que paralisa. E não se progride sem movimento. Não faz sentido desistir ou perder tempo com pensamentos negativos. Mas, sou como tudo que anda e pensa, e não é todo dia que ganho de mim.

Horas no quarto com o portátil [laptop] no colo, as costas dóem e as nóias batem: o computador recém-adquirido, que deveria ser instrumento de trabalho, parece estar mesmo com defeito. Ao comprá-lo, me informaram que “a caixa estava aberta”, e que se houvesse problema tinha 30 dias para troca. A ânsia por conexão com o cyberespaço me fez esquecer que a pressa só não é inimiga de maratonistas.

Tela travada à frente e surge uma vontade incontrolável de fugir correndo para um local seguro, um bunker? Lembro de um café a algumas quadras. A chuva, porém, vem tentar me impedir. Eu não trouxe guarda-chuva na mala – nem saboneteira e elásticos de cabelo. Saio mesmo assim. Vou até a esquina e peço uma Cola (como eles abreviam). Bebo debaixo de um toldo, assistindo as gotas caírem. Decido usar o capuz e me ponho a andar pela vizinhança que ainda pouco conheço.

Numa loja chinesa, dessas que têm tudo (aqui também!), não havia sombrinha – eu queria um modelo de bolsa, para uma pretensa andarilha lisboeta. Quase volto para casa, mas me deparo com outra loja, apertada e curiosa, no meio do caminho. Um senhor atrás do balcão olha para mim. Entro e pergunto por porta-sabonete (será esse o termo?). Ele abre uma gaveta e tira um branco, meio encardido.

_Quanto custa?

_Quinze euros.

_Quinze?!

Ele me mostra a etiqueta, € 1,50. Sorrimos.

_E guarda-chuva de bolsa?

Entre as várias cores e estampas, opto por uma xadrez de azul e marrom, nem tão sóbria nem tão chamativa.

_39 euros.

Já sei que são € 3,90. Outro sorriso duplo.

_Não se pode levar a vida tão a sério! – ele me diz com os mesmos lábios felizes.

Às vezes, o que se precisa para ter uma resposta é dar uma volta no quarteirão.

Nem a maior mala do mundo é capaz de carregar tudo.

A chuva parou ali.

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