Doce vida de cão

19.Maio.2009 - 2 Responses

Para o Lu

Pequeneza, só de tamanho. Preencheu a vida de nós, gigantes, com grandeza feita de leveza e alegria.

Gracejos. Presentes de todos os dias – acordava, seguia, pulava, chamava. Tinha graça até quando dormia.

Os passos, apressados, ora pairavam com o cheiro do ar, o odor da rua, o rastro do desconhecido. Ora levavam além do permitido, como que sugerindo “Podemos ir só mais um pouquinho ali?”. (Quem não desejaria?)

Olhos arregalados, calados, gravavam cada movimento, entendiam o que os meus diziam.

Com ele aprendi que a saudade é mesmo assim: faz parte. (Ah, a saudade…) É sentir o coração chorar… E, ao mesmo tempo, sorrir.

Estreamos!

08.Maio.2009 - 3 Responses

2009 tem sido agitado, cheio de mudanças, desafios e boas (ótemas!) novas. Esta que relato agora é fruto de mais uma maravilhosa coincidência da vida: um grande amigo que me repassa um contato de possível freela para uma nova revista, para a qual eu me apresento interessada, o que resulta na minha apresentação na mão de uma pessoa que há tempos o destino quer trazer pra perto – e que, pra história ficar completa, é redatora-chefe da tal revista.

A Red Report é uma nova aposta da comunicação da TAM. Circula somente nos voos internacionais e tem cara e abordagem ultramodernas. Linda! Matérias que mais parecem dicas de amigos descolados!

Nesta primeira edição, fui responsável pela seção Destinations – “Um olhar insider sobre os destinos TAM” -, mais especificamente pelos hotéis, restaurantes, bares, baladas, lojas e aeroportos de 14 cidades do Brasil e da Europa. Também tive o prazer de assinar uma nota com o melhor do bairro madrilenho de Chueca – que conheci no ano passado e já inclui na minha lista de points bacanas.

Enquanto a materinha de Madri não é estampada no meu portfólio online (www.flaviaperin.com), aqui vai o texto tal qual está nas páginas da Red.

Até o sol raiar

No bairro de Chueca, alguns endereços espertos para a noite acabar de dia

Vibrante e cada vez mais moderna, Madri esbanja diversão para quem tem gás – a ‘movida’ noturna é das melhores da Europa e agrada aos gostos mais variados. O bairro do momento é Chueca, que superou os tempos em que era ponto de drogas e prostituição para se transformar numa das mais divertidas e dinâmicas regiões da capital espanhola. Café, take away e videoclube, o Diurno (San Marcos, 37, 522-0009) é reduto de cinéfilos. Gostou da proposta? Vá ao bar da família Bardem, La Bardemcilla (Augusto Figueroa, 47, 521-4256), e aproveite para degustar boa comida a preços acessíveis. Os pratos são batizados com nomes de filmes! Para dançar, os antenados procuram o Priscilla (San Bartolomé, 6). E, para encerrar a noite sem abandonar o estilo local, o Hotel Room Mate Óscar (Plaza Vázquez de Mella, 12, 701-1173). Supercool, serve o café da manhã até meio-dia. Não sobram desculpas para não aproveitar os embalos até o fim…

* Flavia Perin acaba de voltar de uma temporada europeia e recupera-se de várias noites sem dormir

Edição que vem tem mais colaboração “vermelha”… Mais endereços legais em mais cidades (América do Sul entra na jogada!) e uma notinha sobre um restau muy rico na deliciosa Buenos Aires.

Já vêm aí mais novidades, aguardem!

O resgate da blogueira

30.Abril.2009 - 3 Responses

Quero voltar a pensar em textos para este blog e, mais ainda, arranjar tempo (e ânimo) para escrevê-los. Porque aqui estou eu de novo tentando descobrir o motivo da minha mudez blogueira… Eu sei a razão. Comecei escrevendo de Portugal – o que era a ideia original, relatar, passo a passo, esta experiência. Não relatei quase nada mas acabei parando nesta estação, passando a análises e reflexões (poucas, ok), e de algum modo me perdendo… Desde que aqui comecei, este tem sido o único tema: tudo leva a este país ou à língua que nos une – e nos separa, como já comentado aqui também. Não se pode andar a vida toda em círculos.

Vamos variar! Do muito que já foi dito sobre o assunto, restaram montes de coisas por dizer, é verdade. Encerro com uma confidência: lá em Portugal, passei por um período de preguiça de blogar, por ter sido atropelada, no melhor sentido, de novidades, informações e sensações, e não menos por concluir sem muito esforço que era tudo muito pessoal para um espaço mundial e aberto. Fui, vivi, não quis dividir e pronto. Quem quiser saber, me pergunte e eu conto!

Segue um resumo do que vivi em terras lusas, textinho que fiz sob encomenda para ser publicado no Panrotas – mas que ficou na gaveta (deles) pois era de alguém ligado ao trade turístico, e não de alguém do trade turístico.

Sempre tive vontade de morar por algum tempo fora do país e aproveitar o benefício de possuir cidadania italiana – com a qual eu poderia trabalhar legalmente durante a experiência. Como sou jornalista – fui repórter de turismo do Jornal da Tarde por quase três anos, até 2003, e assessora de imprensa da MSC Cruzeiros em 2007 e da Braztoa no 29º Encontro Comercial, em 2008 – e não queria deixar de atuar na minha área, decidi por Portugal em função da língua, fundamental para a minha atividade, e dos bons amigos que tenho por lá. A primeira oportunidade profissional surgiu logo que cheguei a Lisboa, em maio do ano passado: fazer a assessoria de imprensa de ações de marketing da Brasiliatur na capital portuguesa. Após este job de cerca de dois meses, trabalhei numa agência de comunicação como freelancer e escrevi matérias de turismo para publicações brasileiras e lusitanas, como a edição portuguesa da revista de bordo da companhia aérea White. Até que fui contratada por 4 meses por uma empresa de eventos e conteúdos gastronômicos, a Edições do Gosto, onde fiquei até dezembro, quando decidi voltar para o Brasil. A decisão foi tomada por conta da atual crise econômica e do mercado, que aqui, até pelo tamanho do país, pude constatar que oferece mais chances e uma perspectiva mais otimista. Considero estes 7 meses e meio vividos em Lisboa um dos períodos de maior crescimento da minha vida. Senti o peso da diferença cultural, sem dúvida, e me surpreendi com as enormes divergências entre o idioma que nós usamos e eles usam. Mas, ao mesmo tempo, fui muito bem acolhida, fiz novos amigos, conheci lugares incríveis e aprendi a valorizar ainda mais o que nós, brasileiros, temos de melhor.”

Isto posto, colocamos um ponto final neste capítulo. A partir de agora o foco serão os novos passos profissionais e, quem sabe, insights, dicas de filmes, livros e lugares, diários de viagem, desabafos, ficção. Tudo bem ao gosto desta “escrevinhadora” de profissão e de coração.

Ah, para quem discorda do post abaixo, sobre o bendito (não dito?) Acordo Ortográfico, indico um outro ponto de vista que vale a pena ser considerado: Mesma grafia, línguas diferentes, de Bruno Dallari. Como é bom poder ver os outros lados, não?…

 

Mexamos a língua!

12.Fevereiro.2009 - 3 Responses

Ou “Porque eu gosto do Acordo Ortográfico”

Quantas matérias, artigos e entrevistas com linguistas (sem trema, hein?) e outros ‘istas’ já li sobre as mudanças na nossa gramática do dia a dia? (Agora sem hífen mesmo quando é substantivo…)

Todo mundo concorda, mesmo quem defende o Acordo, que reaprender qualquer coisa é uma chatice, assim como o é para os profissionais diretamente envolvidos – professores, jornalistas, revisores, editores - ter de ficar explicando porque deixaram ou é preciso deixar de usar um acento ou certa grafia. Concordo, temos mais o que fazer. Mas, por que não adiar outros aprendizados, ou mesmo hobbies, a novela das 8,  o BBB, o cineminha para sentar 10 minutos diante de um bom resumo das alterações do Acordo? Ninguém vai perder uma perna e o cerébro agradece – ele adora exercício.

O que está em questão aqui vai muito além de achar mais prático, bonito, democrático ou solidário usar esta ou aquela regra. E nem vou falar do quanto o mercado editorial pode crescer nos 8 países de língua portuguesa com o intercâmbio/comércio de livros. Estamos, afinal, discutindo uma matéria que para muitos só existia na escola, que está esquecida mesmo que seja usada todos os dias, em tudo, e que seja o nosso primeiro e melhor cartão de visita. Não consigo deixar de dar 100 pontos de crédito para uma pessoa, de cara, se vejo que ela usa direito, bem o seu idioma. Falar e escrever bem significam comunicar-se e compreender melhor o mundo. Ter a chance de ser, portanto, um ser humano mais justo.

Quem tem preguiça do assunto, atire a primeira pedra, e eu devolvo um calhamaço de textos, até emails, cheios de erros marcados em vermelho. Forçando assumidamente a barra: sinto como se fosse a própria visão do inferno, parece sangue! E ouvir um “nós vai”? Ouço direto, de bocas bem tratadas, gafes piores ou semelhantes.

Então, gente, vamos mexer essas cabeças e línguas, estimular a nós próprios e aos outros para este movimento, e quem sabe assim nosso país deixa de ter a língua presa!

E tenho dito.

Só podia ser Clarice

31.Janeiro.2009 - 2 Responses

“Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado.”

Clarice Lispector, no livro Água Viva.

Qual é a sua lógica?

06.Novembro.2008 - 2 Responses

farmacia

Sim, a frase desta sacola de uma farmácia lisboeta – “Aberto à hora do almoço” – é sensacional, motivo de riso imediato se você que lê este texto é, como eu, brasileiro. Mas se és português, podes estar a pensar “Qual é a piada?”. O que justifica os dizeres é um motivo simples, capaz de matar um paulistano de inveja… Nem tudo fica aberto à hora do almoço na capital portuguesa, apenas porque o comércio é movimentado por pessoas, que têm seus negócios, trabalham nestas empresas ou são clientes, possíveis compradores, mas todos possuem um ponto em comum: almoçam, param à metade do dia para comer, espairecer, conversar, dar aquela espiada na banca de jornais, ou um salto até o Caixa Multibanco, ou o que mais tiver vontade. O que para nós brasileiros causa um estranhamento instantâneo e divertido mostra um outro modo de levar a vida muito mais original e saudável. Mas e se eu quero ir bem na hora do almoço àquela loja? Sim, eu bem sei como é difícil adiar esse tipo de coisa… Nasci na cidade que não pára nunca.

Este papo começou uns 3 posts pra baixo (não vai ser demorado achar, este blog anda meio às moscas…), mas o que há a mais é que a diferença PT-BR tem se revelado pra mim maior, muito maior, menos sutil do que parece, e tão sutil ao mesmo tempo que às vezes quase não se nota… E a confusão pode estar feita, instalada, nesse espaço que pode ser de um pulinho ou de uma viagem num barco a vela. A minha cabeça, que tem uma boa fenda para deixar entrar ar e informação nova, de onde quer que venha, anda anestesiada com as mudanças todas. Confesso que sinto mais dificuldade em falar como os portugueses (e até de entendê-los, quando se empolgam!) do que se tivesse ido pra Espanha. Como assim, sou muito tapada? Talvez!… Me defendo, porém, dizendo que, como pessoa atenta à língua, amante da palavra, dependente da comunicação para ganhar o pão de cada dia, me pego relutando para aceitar que não posso usar meu vocabulário do jeito que aprendi, que sei melhor, que gosto, que uso como canal da minha ânsia criativa. Imaginem alguém te repreender porque você usou um termo que até existe por cá, mas não é tão usado, não assim, dessa maneira… É quase te pedir para trocar a cor do seu All Star, que você acha que combina perfeitamente com todo o resto da roupa. Ou ver seu time com um uniforme novo que não te agrada (acho que os homens entendem esse exemplo, sei lá, foi uma tentativa pela democracia…).

Pode tudo ser uma visão minha, parcial à beça, é claro que é. E essa é outra ficha que cai aos poucos, “como ser você mesmo em terra estranha”. Apesar de adorar falar, bater papo, puxar conversa, me pego muitas vezes calada, tentando sacar “qualé, o que é que rola”… Porque não é do meu feitio chegar e achar que posso abrir meu leque e me abanar à vontade, sem ligar pra torcida, não fora de casa, tão longe da minha praia… Não acho mau, gosto quando respeito a máxima de que não temos dois ouvidos e só uma boca à toa. Só que faz falta comentar uma bobagem e ter o efeito esperado, ou ter uma reação e saber que não se vai causar choque, e vice-versa. Eu estranho tudo bem mais do que achava. “Vou pra Portugal, oras, é quase família!” Experimente lembrar daquela festinha daqueles tios distantes, que você nunca vê, e que na realidade são pessoas que você olha e não enxerga muito mais do que as roupas… Tudo bem, eu já conheci um tio-avô com mais de 20 anos de idade (eu!), numa viagem de trabalho, e amei todos, tio, tia, primos, cães à primeira vista. Mas já vivi o inverso, já pedi para o meu celular tocar e alguém me chamar pra ir até a esquina, a qualquer lugar, ou pra uma porta se abrir como mágica do banheiro pra rua. Não é propriamente uma experiência superbacana. É intensa, profunda, individual. Em Portugal, como nunca antes, eu me sinto única. Não é solidão, apesar de tê-la sempre à espreita, não é tristeza, mesmo não sendo a coisa mais legal do mundo em alguns casos. (Se é uma gente muito estranha à volta, mais compensa estar no próprio corpo e só, bem tranquila…)

E aí a saudade aperta e eu corro pros meus amigos que fiz e agora estão perto, de um jeito que pode não ser o meu, mas é tããão gostoso… São eles que me mostram, mesmo sem querer, que esse lance de achar que a “nossa” lógica faz mais sentido, é mais certa, é algo totalmente aprisionante e desonesto. Julgar deixa de ser um cacoete que não dói, e ganha um peso real e mais sincero. Eu dou risada por dentro, dou, quando ouço ou vejo algo que não entendo e que não representa o meu universo. Mas engulo, com bastante saliva, pra não me esquecer dos episódios, inúmeros, em que fui apontada, nem sempre da forma mais simpática, como “a brasileira”. Eu sou a Flavia Perin, pombas!, e me chamem pelo nome, me vejam com atenção, me entendam sem usar referências! Quem sabe como é chato ter pensamentos como esse no meio de uma cena pode entender onde quero chegar. Quero chegar mais perto de cada pessoa de bem, não importa de onde, e quero o mesmo comigo. Se fosse fácil eu não riria da frase da farmácia, como quase fiz, porque afinal é onde eu compro umas coisinhas lá pelo meio-dia, e os farmacêuticos, vou dizer, são bastante atenciosos…

Estar longe do próprio país é…

28.Outubro.2008 - Leave a Response

Saber que a Sandy casou numa revista de fofocas de Portugal de dois meses atrás. Mas essa é a parte boa da história!

Saudades é…

26.Outubro.2008 - One Response

…ser surpreendida por “Tiro ao álvaro” na rádio e sentir o corpo todo arrepiar, e começar automaticamente a dançar e sorrir.

Eu volto a escrever em breve. As férias de verão acabaram, mas minhas idéias ainda querem tempo pra voltar à ativa.

Tiro ao álvaro

Adoniran Barbosa

De tanto levá frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furá

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que pecheira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver

Fechamos. Tá?

18.Agosto.2008 - 4 Responses

É assim. Julho e agosto são os meses do verão, da alta temporada de férias em Portugal, e o país pára. Não são de estranhar placas como esta nos estabelecimentos comerciais, do tipo “Fui, beijo e não me liga”. Os textos é que podem surpreender, com o bom e velho português literal que predomina por cá. Enfim, começo a achar, como paulistana da gema que sou, que eles é que sabem aproveitar a vida… Será?

Que venha setembro! E que haja leveza de espírito e paciência (para quem tem pressa) até lá!

ps. Demorei um bocado para voltar a esta “casa”, eu sei, mas prometo aumentar a frequência de textos em breve. Agora tá calor e eu quero praia!

Do que não se pode esquecer na bagagem

16.Maio.2008 - 5 Responses

Este blog começa a ser escrito em Lisboa, Portugal. Aos que não sabem, por decisão desta jornalista brasileira mezzo italiana que, entre o ame-o ou deixe-o [o Brasil], optou pelos dois. Vim para cá, entre outras razões, para escrever mais perto de Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco. E para ver de longe o que mais gosto e prezo na vida. Perto nem sempre se enxerga bem. O coração é hipermétrope, alguém já disse? Ah, sim, li em algum lugar que um escritor nasce de uma longa viagem.

Eu poderia iniciar meus relatos contando como achei esta cidade encantadora, bela e fascinante. Falando de seu povo de fala chiada, palavras e expressões diferentes, difíceis de entender ao primeiro ouvido. Dos predinhos antigos colados uns aos outros e das ruas iluminadas por postes baixos de luz amarela – e de como dão às ruas um ar bucólico e romântico. Ou do Tejo, rio que parece mar, e da riqueza dos seus frutos, presentes nos menos pretensiosos cardápios. (Mmmm, posso acabar me estendendo se delegar esta narrativa ao meu estômago…)

Não, não. Escreverei sobre o meu primeiro dia de tédio, em que a pressão (minha sobre mim) para fazer dar certo este passo além-mar eclodiu no sentimento que não se pode ter sob nenhuma hipótese: o medo. Medo que paralisa. E não se progride sem movimento. Não faz sentido desistir ou perder tempo com pensamentos negativos. Mas, sou como tudo que anda e pensa, e não é todo dia que ganho de mim.

Horas no quarto com o portátil [laptop] no colo, as costas dóem e as nóias batem: o computador recém-adquirido, que deveria ser instrumento de trabalho, parece estar mesmo com defeito. Ao comprá-lo, me informaram que “a caixa estava aberta”, e que se houvesse problema tinha 30 dias para troca. A ânsia por conexão com o cyberespaço me fez esquecer que a pressa só não é inimiga de maratonistas.

Tela travada à frente e surge uma vontade incontrolável de fugir correndo para um local seguro, um bunker? Lembro de um café a algumas quadras. A chuva, porém, vem tentar me impedir. Eu não trouxe guarda-chuva na mala – nem saboneteira e elásticos de cabelo. Saio mesmo assim. Vou até a esquina e peço uma Cola (como eles abreviam). Bebo debaixo de um toldo, assistindo as gotas caírem. Decido usar o capuz e me ponho a andar pela vizinhança que ainda pouco conheço.

Numa loja chinesa, dessas que têm tudo (aqui também!), não havia sombrinha – eu queria um modelo de bolsa, para uma pretensa andarilha lisboeta. Quase volto para casa, mas me deparo com outra loja, apertada e curiosa, no meio do caminho. Um senhor atrás do balcão olha para mim. Entro e pergunto por porta-sabonete (será esse o termo?). Ele abre uma gaveta e tira um branco, meio encardido.

_Quanto custa?

_Quinze euros.

_Quinze?!

Ele me mostra a etiqueta, € 1,50. Sorrimos.

_E guarda-chuva de bolsa?

Entre as várias cores e estampas, opto por uma xadrez de azul e marrom, nem tão sóbria nem tão chamativa.

_39 euros.

Já sei que são € 3,90. Outro sorriso duplo.

_Não se pode levar a vida tão a sério! - ele me diz com os mesmos lábios felizes.

Às vezes, o que se precisa para ter uma resposta é dar uma volta no quarteirão.

Nem a maior mala do mundo é capaz de carregar tudo.

A chuva parou ali.