Pode chamar de Guga… Sabe quem?

Entrevista com o tenista Gustavo Kuerten, o Guga, concedida por email para a seção Olhar estrangeiro da edição de maio da revista Up!, da companhia aérea portuguesa TAP. Texto na íntegra, em português BR.

Por Flavia Perin

Maior tenista brasileiro de todos os tempos, Gustavo Kuerten – Guga, como é conhecido – é uma figura fundamental do esporte do Brasil, facilmente lembrado por suas três vitórias em Roland Garros (em 1997, 2000 e 2001), torneio que, reconhece, é a sua grande paixão. O Aberto da França de 1997 foi a sua primeira grande conquista profissional e a maior do tênis masculino brasileiro até hoje. O jovem catarinense, então com apenas 20 anos e 66º do ranking mundial, desbancaria o bicampeão do torneio, o espanhol Sergi Bruguera, em plena final.

A trajetória premiada começou cedo, aos 6 anos, quando Guga já “batia umas bolinhas” e disputava torneios na categoria 10 anos. Aos 14 anos passou a trabalhar com o treinador Lari Passos e, assim, a percorrer o mundo das quadras. Começava uma carreira construída com muito comprometimento, como define Guga. “A progressão e o modo como me diferenciei pelos resultados foram um processo natural e um grande aprendizado”, afirma. Mesmo fora das quadras como jogador, mantém a forte identificação com o esporte que trouxe títulos e sucesso e que, segundo ele, se transformou em amor. Atualmente, Guga promove ações sociais com o Instituto Guga Kuerten, que atua principalmente em Santa Catarina, e trabalha em projetos para desenvolver o tênis no Brasil.

Neste momento, está envolvido com a realização da Semana Guga Kuerten, que ocorrerá em Florianópolis do dia 7 a 14 de junho. O evento terá como base a sua experiência como tenista desde a fase juvenil e será composto por várias ações, como a Copa Guga Kuerten para tenistas de 10 a 18 anos, um torneio nacional que ele espera que no futuro se torne internacional. Haverá também clínicas com Larri Passos e o tenista brasileiro Jaime Oncins, palestras com o preparador físico Nuno Cobra e jogos de tênis por toda a capital catarinense, realizados em mini-quadras.

Para encerrar, Guga jogará um jogo-exibição com Sergi Brugera, repetindo a final de Roland Garros de 1997. “Voltei a treinar com o Larri para poder encarar mais uma vez o Brugera”, conta. Mais um acontecimento marcante para o tenista que diz que, com o tênis, experimenta emoções que só o esporte pode proporcionar. “O tênis me ensinou muito em termos de disciplina, determinação, respeito, valores morais, planejamento e conquista de metas, além de cultura em função das viagens.”

Portugal ocupa parte importante de seu mapa profissional e afetivo, já que em 2000 venceu o Masters Cup de Lisboa. “Realizei o sonho de terminar uma temporada como o número 1 do mundo, tendo a oportunidade de enfrentar Pete Sampras e Andre Agassi, na semifinal e na final da competição.” Como brasileiro, revela ter uma ligação histórica com Portugal, vínculo que foi se aprofundando com os vários torneios que disputou no país. “A cultura e o idioma me deixam muito confortável em Portugal.” Para ele, a aproximação e o envolvimento entre os brasileiros e o povo português foram determinantes para a conquista do Masters Cup de Lisboa. “São detalhes que contam demais numa vitória. Foi muito legal poder discursar em português.”

Aos turistas de primeira viagem a terras portuguesas, Guga sugere que se dediquem a conhecer e a se aprofundar na cultura nacional. “A história dos precursores das expedições marítimas e a literatura, enfim, todo o lado cultural que está ligado diretamente à nossa origem”, aponta. Das idas à Portugal, o tenista guarda a lembrança do desenvolvimento que testemunhou. “Visitei Portugal na década de 90 e, quando voltei em 2000, percebi uma evolução rápida, um país mais desenvolvido, mais bem preparado.” Uma passagem bastante forte e interessante, apesar de triste, está entre as memórias que Guga mantém em relação à Portugal: “Eu sempre declarei que era fã do Ayrton Senna, mas nós não nos conhecíamos e combinamos de nos encontrar na Quinta da Braguinha, em Bragança, logo após a corrida dele e do meu jogo em Lisboa. Não deu tempo. O Senna morreu na Itália no mesmo dia em que eu estava jogando em Portugal. Esta história é inesquecível para mim.”

Das personalidades portuguesas, as que mais despertam a sua admiração são Luís Figo, Cristiano Ronaldo e Eusébio, no futebol, e a maratonista Rosa Mota. Seu lugar predileto no país? “A Praia do Guincho”, em Cascais, responde sem titubear, já que além de tenista Guga é um aficcionado surfista. Ele lembra que Santa Catarina oferece boas condições de surfe durante o ano inteiro, de Florianópolis até as praias do sul do Estado. Entusiasmado com o assunto, Guga destaca o que há de melhor em sua terra natal: “Apesar da nossa beleza natural diferenciada, me orgulho muito do povo catarinense. Santa Catarina também foi privilegiada pela imigração, influência que, agregada à emotividade brasileira, gerou uma população muito gentil e receptiva.” Um legítimo convite para conhecer Santa Catarina, de um dos seus mais estrelados filhos.

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