Saudade capital

16.Junho.2009 - 6 Responses

Brasília tem um quê de capital de outro planeta.

Inóspita e improvável, reta e curva, agregadora e distante, única.

Depois de lá estar por duas semanas quase inteiras, seguidas, sinto falta… Simples saudades de estar lá, naquela posição geográfica que não é a minha raiz exata — que é Sampa –, mas que tanto diz do meu país, desse nosso povo, dessa nossa cultura. Eu indico o Cerrado, a selva de pedra (meio um descampado) de Niemeyer, o céu de Brasília.

Também o final de tarde, os taxistas — Aidê! Sérgeo! –, os moradores de nomes estranhos, as quadras, os setores, os eixos. Os bares cheios de não-sei-quem’s e o monsieur Daniel Briand, pelo ambiente francês, os croissants e a bomba de chocolate! Aquele árabe que mesmo numa segunda-feira tinha vida, obrigada!

Me sinto mais brasileira depois desses dias brasilienses… Coisa boa.

E, pra fechar com chave de ouro, mais uma dessas coincidências que a gente adora — Vanvan que achou noutro blog: Os Bolonistas –, um trecho do filme L’ Homme de Rio, de 1964, com Jean-Paul Belmondo. Ótemo!

da série Frases invasoras de cérebro

10.Junho.2009 - Leave a Response

No mundo adulto não há espaço para firulas.
(Da rainha das firulinhas)

Isto é poesia, meu senhor

09.Junho.2009 - One Response

Passou a diligência pela estrada, e foi-se;

E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.

Assim é a ação humana pelo mundo afora.

Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;

E o sol é sempre pontual todos os dias.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), Poesia

Do que se ouve com os ouvidos mais atentos

01.Junho.2009 - One Response

É engraçado que se descubram preciosidades em meio a coisas que já nos pertenciam. Livros que lemos de novo e com os quais finalmente nos identificamos, roupas para as quais não damos muita bola e de repente vestimos e com elas nos gostamos, músicas que num dado momento parecem mais bonitas e sincronizadas com o que estamos pensando, sentindo, vivendo. Com uma música, isso pode rolar sem que a letra tenha um sentido literal, levado à risca. Pode ser que os versos falem em código, escondam mensagens desconexas… Dá pra entender? Talvez não dê mesmo, e cada vez mais eu aprecio aqueles lances que a gente não sabe bem como…

Meiga Presença

Mart’nália

Quem ao meu lado
esses passos caminhou?
Esse beijo em meu rosto,
quem beijou?

A mão que afaga a minha mão,
este sorriso que não vejo
De onde vem? Quem foi que me voltou?
Vem, de outro tempo
bem longe que esqueci

A ternura que nunca mereci
Quem foste tu presença e pranto?
Eu nunca fui amada tanto
Estás aqui, momento antigo
Estás comigo!
Se não te importa ser lembrado
Se não te importa ser amado
Amor amigo, fica ao meu lado sempre

O futebol explica tudo…

24.Maio.2009 - One Response

“A bola não é a inimiga

como o touro, numa corrida;

e, embora seja um utensílio

caseiro e que se usa sem risco,

não é o utensílio impessoal,

sempre manso, de gesto usual:

é um utensílio semivivo,

de reações próprias como bicho,

e que, como bicho, é mister

(mais que bicho, como mulher)

usar com malícia e atenção

dando aos pés astúcias de mão.”

João Cabral de Melo Neto

Pode chamar de Guga… Sabe quem?

21.Maio.2009 - Leave a Response

Entrevista com o tenista Gustavo Kuerten, o Guga, concedida por email para a seção Olhar estrangeiro da edição de maio da revista Up!, da companhia aérea portuguesa TAP. Texto na íntegra, em português BR.

Por Flavia Perin

Maior tenista brasileiro de todos os tempos, Gustavo Kuerten – Guga, como é conhecido – é uma figura fundamental do esporte do Brasil, facilmente lembrado por suas três vitórias em Roland Garros (em 1997, 2000 e 2001), torneio que, reconhece, é a sua grande paixão. O Aberto da França de 1997 foi a sua primeira grande conquista profissional e a maior do tênis masculino brasileiro até hoje. O jovem catarinense, então com apenas 20 anos e 66º do ranking mundial, desbancaria o bicampeão do torneio, o espanhol Sergi Bruguera, em plena final.

A trajetória premiada começou cedo, aos 6 anos, quando Guga já “batia umas bolinhas” e disputava torneios na categoria 10 anos. Aos 14 anos passou a trabalhar com o treinador Lari Passos e, assim, a percorrer o mundo das quadras. Começava uma carreira construída com muito comprometimento, como define Guga. “A progressão e o modo como me diferenciei pelos resultados foram um processo natural e um grande aprendizado”, afirma. Mesmo fora das quadras como jogador, mantém a forte identificação com o esporte que trouxe títulos e sucesso e que, segundo ele, se transformou em amor. Atualmente, Guga promove ações sociais com o Instituto Guga Kuerten, que atua principalmente em Santa Catarina, e trabalha em projetos para desenvolver o tênis no Brasil.

Neste momento, está envolvido com a realização da Semana Guga Kuerten, que ocorrerá em Florianópolis do dia 7 a 14 de junho. O evento terá como base a sua experiência como tenista desde a fase juvenil e será composto por várias ações, como a Copa Guga Kuerten para tenistas de 10 a 18 anos, um torneio nacional que ele espera que no futuro se torne internacional. Haverá também clínicas com Larri Passos e o tenista brasileiro Jaime Oncins, palestras com o preparador físico Nuno Cobra e jogos de tênis por toda a capital catarinense, realizados em mini-quadras.

Para encerrar, Guga jogará um jogo-exibição com Sergi Brugera, repetindo a final de Roland Garros de 1997. “Voltei a treinar com o Larri para poder encarar mais uma vez o Brugera”, conta. Mais um acontecimento marcante para o tenista que diz que, com o tênis, experimenta emoções que só o esporte pode proporcionar. “O tênis me ensinou muito em termos de disciplina, determinação, respeito, valores morais, planejamento e conquista de metas, além de cultura em função das viagens.”

Portugal ocupa parte importante de seu mapa profissional e afetivo, já que em 2000 venceu o Masters Cup de Lisboa. “Realizei o sonho de terminar uma temporada como o número 1 do mundo, tendo a oportunidade de enfrentar Pete Sampras e Andre Agassi, na semifinal e na final da competição.” Como brasileiro, revela ter uma ligação histórica com Portugal, vínculo que foi se aprofundando com os vários torneios que disputou no país. “A cultura e o idioma me deixam muito confortável em Portugal.” Para ele, a aproximação e o envolvimento entre os brasileiros e o povo português foram determinantes para a conquista do Masters Cup de Lisboa. “São detalhes que contam demais numa vitória. Foi muito legal poder discursar em português.”

Aos turistas de primeira viagem a terras portuguesas, Guga sugere que se dediquem a conhecer e a se aprofundar na cultura nacional. “A história dos precursores das expedições marítimas e a literatura, enfim, todo o lado cultural que está ligado diretamente à nossa origem”, aponta. Das idas à Portugal, o tenista guarda a lembrança do desenvolvimento que testemunhou. “Visitei Portugal na década de 90 e, quando voltei em 2000, percebi uma evolução rápida, um país mais desenvolvido, mais bem preparado.” Uma passagem bastante forte e interessante, apesar de triste, está entre as memórias que Guga mantém em relação à Portugal: “Eu sempre declarei que era fã do Ayrton Senna, mas nós não nos conhecíamos e combinamos de nos encontrar na Quinta da Braguinha, em Bragança, logo após a corrida dele e do meu jogo em Lisboa. Não deu tempo. O Senna morreu na Itália no mesmo dia em que eu estava jogando em Portugal. Esta história é inesquecível para mim.”

Das personalidades portuguesas, as que mais despertam a sua admiração são Luís Figo, Cristiano Ronaldo e Eusébio, no futebol, e a maratonista Rosa Mota. Seu lugar predileto no país? “A Praia do Guincho”, em Cascais, responde sem titubear, já que além de tenista Guga é um aficcionado surfista. Ele lembra que Santa Catarina oferece boas condições de surfe durante o ano inteiro, de Florianópolis até as praias do sul do Estado. Entusiasmado com o assunto, Guga destaca o que há de melhor em sua terra natal: “Apesar da nossa beleza natural diferenciada, me orgulho muito do povo catarinense. Santa Catarina também foi privilegiada pela imigração, influência que, agregada à emotividade brasileira, gerou uma população muito gentil e receptiva.” Um legítimo convite para conhecer Santa Catarina, de um dos seus mais estrelados filhos.

Doce vida de cão

19.Maio.2009 - 2 Responses

Para o Lu

Pequeneza, só de tamanho. Preencheu a vida de nós, gigantes, com grandeza feita de leveza e alegria.

Gracejos. Presentes de todos os dias – acordava, seguia, pulava, chamava. Tinha graça até quando dormia.

Os passos, apressados, ora pairavam com o cheiro do ar, o odor da rua, o rastro do desconhecido. Ora levavam além do permitido, como que sugerindo “Podemos ir só mais um pouquinho ali?”. (Quem não desejaria?)

Olhos arregalados, calados, gravavam cada movimento, entendiam o que os meus diziam.

Com ele aprendi que a saudade é mesmo assim: faz parte. (Ah, a saudade…) É sentir o coração chorar… E, ao mesmo tempo, sorrir.

Estreamos!

08.Maio.2009 - 3 Responses

2009 tem sido agitado, cheio de mudanças, desafios e boas (ótemas!) novas. Esta que relato agora é fruto de mais uma maravilhosa coincidência da vida: um grande amigo que me repassa um contato de possível freela para uma nova revista, para a qual eu me apresento interessada, o que resulta na minha apresentação na mão de uma pessoa que há tempos o destino quer trazer pra perto – e que, pra história ficar completa, é redatora-chefe da tal revista.

A Red Report é uma nova aposta da comunicação da TAM. Circula somente nos voos internacionais e tem cara e abordagem ultramodernas. Linda! Matérias que mais parecem dicas de amigos descolados!

Nesta primeira edição, fui responsável pela seção Destinations – “Um olhar insider sobre os destinos TAM” -, mais especificamente pelos hotéis, restaurantes, bares, baladas, lojas e aeroportos de 14 cidades do Brasil e da Europa. Também tive o prazer de assinar uma nota com o melhor do bairro madrilenho de Chueca – que conheci no ano passado e já inclui na minha lista de points bacanas.

Enquanto a materinha de Madri não é estampada no meu portfólio online (www.flaviaperin.com), aqui vai o texto tal qual está nas páginas da Red.

Até o sol raiar

No bairro de Chueca, alguns endereços espertos para a noite acabar de dia

Vibrante e cada vez mais moderna, Madri esbanja diversão para quem tem gás – a ‘movida’ noturna é das melhores da Europa e agrada aos gostos mais variados. O bairro do momento é Chueca, que superou os tempos em que era ponto de drogas e prostituição para se transformar numa das mais divertidas e dinâmicas regiões da capital espanhola. Café, take away e videoclube, o Diurno (San Marcos, 37, 522-0009) é reduto de cinéfilos. Gostou da proposta? Vá ao bar da família Bardem, La Bardemcilla (Augusto Figueroa, 47, 521-4256), e aproveite para degustar boa comida a preços acessíveis. Os pratos são batizados com nomes de filmes! Para dançar, os antenados procuram o Priscilla (San Bartolomé, 6). E, para encerrar a noite sem abandonar o estilo local, o Hotel Room Mate Óscar (Plaza Vázquez de Mella, 12, 701-1173). Supercool, serve o café da manhã até meio-dia. Não sobram desculpas para não aproveitar os embalos até o fim…

* Flavia Perin acaba de voltar de uma temporada europeia e recupera-se de várias noites sem dormir

Edição que vem tem mais colaboração “vermelha”… Mais endereços legais em mais cidades (América do Sul entra na jogada!) e uma notinha sobre um restau muy rico na deliciosa Buenos Aires.

Já vêm aí mais novidades, aguardem!

O resgate da blogueira

30.Abril.2009 - 3 Responses

Quero voltar a pensar em textos para este blog e, mais ainda, arranjar tempo (e ânimo) para escrevê-los. Porque aqui estou eu de novo tentando descobrir o motivo da minha mudez blogueira… Eu sei a razão. Comecei escrevendo de Portugal – o que era a ideia original, relatar, passo a passo, esta experiência. Não relatei quase nada mas acabei parando nesta estação, passando a análises e reflexões (poucas, ok), e de algum modo me perdendo… Desde que aqui comecei, este tem sido o único tema: tudo leva a este país ou à língua que nos une – e nos separa, como já comentado aqui também. Não se pode andar a vida toda em círculos.

Vamos variar! Do muito que já foi dito sobre o assunto, restaram montes de coisas por dizer, é verdade. Encerro com uma confidência: lá em Portugal, passei por um período de preguiça de blogar, por ter sido atropelada, no melhor sentido, de novidades, informações e sensações, e não menos por concluir sem muito esforço que era tudo muito pessoal para um espaço mundial e aberto. Fui, vivi, não quis dividir e pronto. Quem quiser saber, me pergunte e eu conto!

Segue um resumo do que vivi em terras lusas, textinho que fiz sob encomenda para ser publicado no Panrotas – mas que ficou na gaveta (deles) pois era de alguém ligado ao trade turístico, e não de alguém do trade turístico.

Sempre tive vontade de morar por algum tempo fora do país e aproveitar o benefício de possuir cidadania italiana – com a qual eu poderia trabalhar legalmente durante a experiência. Como sou jornalista – fui repórter de turismo do Jornal da Tarde por quase três anos, até 2003, e assessora de imprensa da MSC Cruzeiros em 2007 e da Braztoa no 29º Encontro Comercial, em 2008 – e não queria deixar de atuar na minha área, decidi por Portugal em função da língua, fundamental para a minha atividade, e dos bons amigos que tenho por lá. A primeira oportunidade profissional surgiu logo que cheguei a Lisboa, em maio do ano passado: fazer a assessoria de imprensa de ações de marketing da Brasiliatur na capital portuguesa. Após este job de cerca de dois meses, trabalhei numa agência de comunicação como freelancer e escrevi matérias de turismo para publicações brasileiras e lusitanas, como a edição portuguesa da revista de bordo da companhia aérea White. Até que fui contratada por 4 meses por uma empresa de eventos e conteúdos gastronômicos, a Edições do Gosto, onde fiquei até dezembro, quando decidi voltar para o Brasil. A decisão foi tomada por conta da atual crise econômica e do mercado, que aqui, até pelo tamanho do país, pude constatar que oferece mais chances e uma perspectiva mais otimista. Considero estes 7 meses e meio vividos em Lisboa um dos períodos de maior crescimento da minha vida. Senti o peso da diferença cultural, sem dúvida, e me surpreendi com as enormes divergências entre o idioma que nós usamos e eles usam. Mas, ao mesmo tempo, fui muito bem acolhida, fiz novos amigos, conheci lugares incríveis e aprendi a valorizar ainda mais o que nós, brasileiros, temos de melhor.”

Isto posto, colocamos um ponto final neste capítulo. A partir de agora o foco serão os novos passos profissionais e, quem sabe, insights, dicas de filmes, livros e lugares, diários de viagem, desabafos, ficção. Tudo bem ao gosto desta “escrevinhadora” de profissão e de coração.

Ah, para quem discorda do post abaixo, sobre o bendito (não dito?) Acordo Ortográfico, indico um outro ponto de vista que vale a pena ser considerado: Mesma grafia, línguas diferentes, de Bruno Dallari. Como é bom poder ver os outros lados, não?…

 

Mexamos a língua!

12.Fevereiro.2009 - 3 Responses

Ou “Porque eu gosto do Acordo Ortográfico”

Quantas matérias, artigos e entrevistas com linguistas (sem trema, hein?) e outros ‘istas’ já li sobre as mudanças na nossa gramática do dia a dia? (Agora sem hífen mesmo quando é substantivo…)

Todo mundo concorda, mesmo quem defende o Acordo, que reaprender qualquer coisa é uma chatice, assim como o é para os profissionais diretamente envolvidos – professores, jornalistas, revisores, editores - ter de ficar explicando porque deixaram ou é preciso deixar de usar um acento ou certa grafia. Concordo, temos mais o que fazer. Mas, por que não adiar outros aprendizados, ou mesmo hobbies, a novela das 8,  o BBB, o cineminha para sentar 10 minutos diante de um bom resumo das alterações do Acordo? Ninguém vai perder uma perna e o cerébro agradece – ele adora exercício.

O que está em questão aqui vai muito além de achar mais prático, bonito, democrático ou solidário usar esta ou aquela regra. E nem vou falar do quanto o mercado editorial pode crescer nos 8 países de língua portuguesa com o intercâmbio/comércio de livros. Estamos, afinal, discutindo uma matéria que para muitos só existia na escola, que está esquecida mesmo que seja usada todos os dias, em tudo, e que seja o nosso primeiro e melhor cartão de visita. Não consigo deixar de dar 100 pontos de crédito para uma pessoa, de cara, se vejo que ela usa direito, bem o seu idioma. Falar e escrever bem significam comunicar-se e compreender melhor o mundo. Ter a chance de ser, portanto, um ser humano mais justo.

Quem tem preguiça do assunto, atire a primeira pedra, e eu devolvo um calhamaço de textos, até emails, cheios de erros marcados em vermelho. Forçando assumidamente a barra: sinto como se fosse a própria visão do inferno, parece sangue! E ouvir um “nós vai”? Ouço direto, de bocas bem tratadas, gafes piores ou semelhantes.

Então, gente, vamos mexer essas cabeças e línguas, estimular a nós próprios e aos outros para este movimento, e quem sabe assim nosso país deixa de ter a língua presa!

E tenho dito.